"Não falta quem já considere a blogosfera como o quinto poder" (Vital Moreira, Colunista, Público)

Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

Ainda hoje dou por mim a olhar para o selo

 

Antes de mais, dois avisos:

1º - Este post é longo. Sente-se para o ler com calma.

2º - Isto é ficção. Qualquer semelhança com a realidade é coincidência.

 

 

Ainda hoje dou por mim a olhar para ele. São muitas, as vezes que fico parado à frente do meu carro a contemplá-lo! Digam o que disserem, ele é bonito. Embora mudasse de cor todos os anos, não havia nele beleza alguma, era deslavado, direi mesmo, era piroso... mas neste ano... aaah... neste ano caprichou na sua aparência. Reflecte por todos os lados, aquelas três bolinhas com as cores dos semáforos dão-lhe um toque especial. Sem dúvida alguma, o selo do carro deste ano é bonito e tem uma personalidade forte... aliás, é personalizado! Acho mesmo que o meu carro, desde que coloquei no vidro dianteiro esta belíssima estampa, tem andado mais feliz... sinto isso mesmo!

 

Lembro-me do início de tudo! Sendo eu um exemplo vivo desta espécie a que se chama português, aguardei até ao (primeiro) último dia dos sucessivos prazos para a compra do selo. Deliberadamente não o comprei via Internet porque achei que (como aconteceu com a declaração do IRS deste ano), estaria a trabalhar gratuitamente para o Ministério das Finanças, introduzindo eu, no meu banco de dados, tudo aquilo que o Senhor Ministro precisa saber para coscuvilhar a minha vida. Assim como assim, eu teria de esperar na mesma que o selo chegasse a minha casa pelo correio e ainda por cima teria que me deslocar ao Multibanco ou às Finanças para o respectivo pagamento. Decidido, fui à Repartição de Finanças de Olhão para adquirir o selo para o meu carro.

 

Lembro-me como se fosse ontem. Estávamos no dia dezanove de Julho do ano de dois mil e seis. Apanhei uma “senhora bichona”. Embora não sejam do meu gosto, convivo perfeitamente com elas... também já nos vamos habituando. Para onde quer que nos viremos, vemos bichas em tudo que é sítio. Coloquei-me no meu lugar aguardando a minha vez. Já começava a ser desesperante. A referida bicha, ziguezagueando-se, avançava lentamente com um rabear insinuante, mas muito tímido. A certa altura entrou uma senhora que, não olhando para ninguém, se dirigiu ao postigo (sim, eu não digo guiché). Imediatamente se ouviu um coro de protestos. Um senhor que estava à minha frente disse: “A senhora está grávida, tem prioridade”. Olhei para ela e reparei que era uma senhora volumosa e tinha um proeminente abdómen. Estava eu constatando tal facto, quando dou por mim a descair os meus olhos para minha barriguinha (sim, porque como já o disse, sou um exemplo vivo desta espécie a que se chama portuga). Pensei (por aqui já podem ver como funciona a cabeça deste pechanense), “olha lá... será que dá resultado!? Nááá! A barba denunciava-me logo...” De repente, estes meus brilhantes pensamentos são interrompidos pela constante resmunguice de uma senhora que estava atrás de mim. “...grávida agora... ela está é inchada... se calhar eu estou mais grávida do que ela...”

 

Quando a tal senhora grávida se foi embora (não cheguei a abrir a minha boca, mas também me pareceu que eu estava tão grávido como ela), a funcionária levantou-se do seu lugar e saiu. Foi a gota de água para a senhora que ia ser atendida depois de mim... “Agora vai embora! Já não bastava estar aqui a trabalhar devagar... isto só em Portugal... lá em França não é assim... blá, blá, blá, blá, blá...” Eu já estava a ficar farto de a ouvir. Apetecia-me, com toda a educação (como é evidente), dizer-lhe: “FECHE A SUA BOCA, POR FAVOR”... (como também é evidente), com toda a educação, não o disse. A funcionária voltou e, depois de algum tempo (com a senhora que continuava a falazar, ora em português, ora em francesice), chegou a minha vez.

 

Quando ouvi as palavras proferidas pela funcionária da Repartição de Finanças de Olhão - “A seguir”; tudo o resto à minha volta parou... chegara o meu momento. Apresentei os documentos da viatura e o cartão de contribuinte. Assim que o meu número foi introduzido no computador, imediatamente a minha vida ficou escarrapachada no ecrã. Confirmou se a morada estava correcta e falou “são quarenta e nove euros e vinte e seis cêntimos”... “desculpe, pode repetir!?” disse eu. Pausadamente a funcionária repetiu o valor. Eu ainda disse: “Tem a certeza!? A minha viatura é apenas um Astrazinho de 2001...” Pelo seu olhar e pelo seu silêncio, percebi imediatamente o que tinha a fazer. Saquei da carteira e paguei. “Paciência” - pensei. “É uma ajudinha para que os autarcas de Olhão possam fazer alguma rotunda ou um qualquer arraial no último ano do seu mandato e assim convencer o povo a votarem novamente neles”. No fim recebi um papel para comprovar o pagamento e a informação de que o selo seria enviado para a minha residência. Agradeci e fui-me embora.

 

Estava a chegar à porta de saída e ainda ouvi a “senhora resmungona”, quando chegou ao guiché (“afrancesada” como era, certamente ela nunca diria postigo). “Quero o livro amarelo.” A funcionária calmamente perguntou: “Quer o livro amarelo porquê”. Ao que a senhora respondeu imediatamente: “Quero enviar o livro amarelo para a DECO. Isto é uma vergonha. Em França o atendimento é outro. Vocês deviam ir todas para a rua e no vosso lugar deviam pôr homens. Eles são muito melhor a atender...”

 

Não sei qual foi o desfecho da história. Fui para casa esperar pelo selo. Finalmente, depois de muita ansiedade e muitas idas à caixa de correio, quase no final de Agosto chegou uma carta da Repartição de Finanças de Olhão. Peguei nela e o meu coração bateu forte... Não era uma carta do fisco a cobrar-me mais IRS. Era a carta do Ministério das Finanças e Administração Pública que trazia o dístico do Imposto Municipal Sobre Veículos. Corri a colocá-lo no carro. Fiquei a contemplá-lo... ainda hoje dou por mim a olhar para ele!

 

sinto-me:
escrito p/ pechanense às 13:05
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12 comentários:
De Barão da Tróia a 24 de Outubro de 2006 às 14:14
Que granda saga, divertida pela maneira como escreves. Boa semana.
De rules a 24 de Outubro de 2006 às 22:01
Ai as finanças as finanças... curiosa a história paralela... TUDO DE BOM :)
De xicoxperto a 24 de Outubro de 2006 às 23:54
É verdade, o selinho no pára-brisas dá um ar romântico à viatura. Tão romântico como uma foto da cicciolina. Só que neste caso os f...... somos nós. eheheh
De Vilma a 25 de Outubro de 2006 às 10:25
Bem... que saga! O que vale é que tens um excelente sentido de humor e leisto provocou um bom sorriso no smeus lábios! hehehehehehe
Mas ouve: que os selos são lindos, então não são?? lolololol
De touaqui a 25 de Outubro de 2006 às 12:31
Ainda bem que já tem o selo da viatura, nem queira saber o que vai por ai de pessoas a reclamar que já pagaram mas que ainda não receberam o selo e a GNR á coca dos faltosos sem selo.
O tal SIMPLEX deu cá uma trabalheira a muita gente com os problemas com as autoridades, que não havia meio de chegar o tal SELINHO a casa e fazer como o meu amigo que foi a correr colocá-lo, melhor não podia fazer.
Claro que sim as FINANÇAS não teem gente mais que suficiente para que nestas alturas fazerem um bom trabalho a quem se designa por pagador de qualquer coisa, a tal bicha tem que existir , é o modelo do País, salvo seja claro, bicha para isto bicha para aquilo , bichas para.......
Claro q ue a sabichona se aproveitou da tal barriguinha e da bicha eheheh, bem fez a tal franceza que pediu o livrinho , o que eu faço ás vezes quando as coisas correm para o torto e os azeites chegam ao nariz.
Claro que como diz a sua barriga não lhe permite dizer que está grávido, se é homem , que quer fazer, devia ser giro você gritar , deixem passar que estou grávido , queria ver a risota.
àh aproveito para lhe dar os parabens , o Algarve está comtempládo com a falta do pagamento das SCUT, o que o mesmo não pode dizer o NORTE, que se encontra mais rico económicamente e socialmente , temos uma mesa mais com condimentos picantes que nos fará picar a lingua.
O que que quer dizer caso haja acidentes nessas vias ninguém se responsabilizará pelos mesmos, a não ser pagar e não bufar.
De JOINCANTO a 25 de Outubro de 2006 às 17:39
eheheeh..lá que foi divertido foi.
De aeimagem a 25 de Outubro de 2006 às 21:49
viva td bem concordo plenamente com o senhor eu tive uma situação gira vi o meu carro ser apreendido 3 vezes foi multado e quase foi tratado como um criminoso ah o carro nem é meu e a culpa era da financeira GE ,devido ao selo
Isto tudo só para dizer uma coisa
E OS PALHAÇOS SOMOS NOS (irei contar esta historia no meu blog)
cumprimentos
De pdivulg a 26 de Outubro de 2006 às 08:44
A senhor queria era homens!!
A gora a sério: lidar com repartições públicas em Portugal, pois eu conheço um pouco o funcionamento noutro país, é dose! Existe uma total falta de humanidade no atendimento, a tangenciar a má educação, por isso afirmo em boa hora veio a opção de internet, é verdade que não nos fica mais barato e que fazemos o trabalho desses senhores/as mas não temos que "aturar" ninguém!
De Intemporal a 26 de Outubro de 2006 às 15:10
Há gostos para tudo, o teu é quase uma "paixão" , e isto pelo selo do carro. Pois eu gosto muito mais do modelo do IRS ( sempre me "devolveu" uns euros.....rs)
Obrigada por avisares que o texto era longo, é que a minha idade já não permite grande permanência em pé. Um abraço (vizinho........rs)
De * a 26 de Outubro de 2006 às 19:35
Não consigo comentar. HAHAHAHAHAH

Até estou a ver a fila pelo passeio e a srª gorda que costuma estar na caixa das finanças.

HAHAHHAHAHAHAHAHAHAH

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